Como eu quero?!

Sempre que escuto músicas presto muita atenção na letra. Como psicóloga tudo que é dito sempre se destaca e naturalmente me faz pensar. E as músicas, independente do ritmo, me fascinam, até mesmo porque tive uma professora de português que nos ensinava interpretação de texto através de letras musicais, assim viciei...
Há uma música em especial que passa uma mensagem de romântica, inocente e até é cantada como declaração de amor, mas que na verdade demonstra algo bem diferente se a analisarmos mais. Ela se chama Como eu quero escrita por Paula Toller e Leoni. Abaixo o clipe e a letra:





Como Eu Quero
Diz prá eu ficar muda, Faz cara de mistério, Tira essa bermuda, Que eu quero você sério...
Tramas do sucesso, Mundo particular, Solos de guitarra, Não vão me conquistar...
Uh! eu quero você, Como eu quero!
Uh! eu quero você, Como eu quero!...(x2)
O que você precisa, É de um retoque total, Vou transformar o seu rascunho, Em arte final...
Agora não tem jeito, Cê tá numa cilada, Cada um por si, Você por mim e mais nada...
Uh! eu quero você, Como eu quero!
Uh! eu quero você, Como eu quero!...
Longe do meu domínio, Cê vai de mal a pior, Vem que eu te ensino, Como ser bem melhor...
Longe do meu domínio, Cê vai de mal a pior, Vem que eu te ensino, Como ser bem melhor...
(Bem melhor!)...
Uh! eu quero você, Como eu quero!
Uh! eu quero você, Como eu quero!...(2x)
Uh! eu quero você, Como eu quero!
Uuuuuuuuuuhhh! Uuuuuuuuuuhhh!...

Bem, se fizermos uma leitura rápida poderemos pensar em alguém apaixonado dizendo que quer muito estar com a outra pessoa, que precisa dela do seu lado e que a quer bem... Contudo, numa leitura mais aprofundada as coisas se mostram de outra forma. O próprio Leoni em uma gravação desta música canta uma primeira versão em forma de balada, mais rapidinha e depois a repete colocando mais ênfase em algumas palavras demonstrando a verdadeira intenção da letra (se quiser conferir: http://www.youtube.com/watch?v=Es2_vKXRwzo).
Que é dizer que quer a outra pessoa, mas do seu jeito, afinal de contas é ele (o pretensamente apaixonado) que sabe o que é melhor para o outro e que pode transformá-lo em alguém melhor. Que se a pessoa fizer o que ele quer, ai sim as coisas darão certo e serão adequadas. E que para ficarem juntos tem que ser de um único e aceitável jeito: o seu. Quanta pretensão não é?!
Pois é, mas quantas vezes nos relacionamentos não acabamos por fazer isso, por julgar o outro por não ser, não agir, não querer, não pensar como nós! Neste ponto reside uma das maiores dificuldades da nossa geração: lidar com as diferenças. Não que antes isto não existisse, sempre existiu, entretanto atualmente se tornou a regra e não a exceção. Por isso tantos casamentos acabam, amizades desaparecem e se manter com alguém se torna cada dia mais difícil. Afinal, te quero como eu quero, do meu jeito!
E do nosso jeito não tem como ser. Pelo menos não só do nosso. Um relacionamento, qualquer que seja ele (amoroso, familiar, de amizade, de trabalho...) é feito de duas pessoas, que são diferentes em suas criações, experiências, maneiras de pensar, de entender o mundo e de interpretar e expressar seus sentimentos. Naturalmente, isso causa muita confusão, quanto mais intima é a relação mais se destaca essas diferenças. É muito dito que depois do casamento as coisas mudam, pioram. Não é verdade, é que a intimidade fica tão maior que essas diferenças aparecem mais, o que exige tolerância.
Ser tolerante com o outro é mais do que aceitá-lo como ele é, é ir contra o nosso narcisismo de acreditar que sabemos mais, pensamos melhor e temos as respostas certas para tudo. Aceitar que o outro pensa e quer coisas diferentes é aceitar que o outro é separado de nós, e que não pensar igual não é falta de amor e sim prova de amor próprio. Algo tão saudável.
Como conviver então? Negociando, conversando. Expor para o outro sua vontade sem esperar que seja concordado, pois pode não acontecer. E ter em mente que isso não é falta de companheirismo ou de amor, mas sim de que vocês pensam diferente. Converse, tente chegar num acordo, esta é a única maneira de qualquer relacionamento dar certo.

Uma reflexão sobre a adolescência

Começo essa reflexão com um questionamento: por que é tão fácil aceitar os erros de uma criança e tão difícil entender os de um adolescente?
Pensei nesta pergunta por perceber o quanto muitas vezes se espera de um adolescente uma responsabilidade e até mesmo capacidades que ainda estão se formando tanto em seu psiquismo, quanto em seu intelecto. Parece que esquecemos muito facilmente disto. Vemos aquele garoto(a) grande, que já está – ou até ultrapassou – a altura dos pais, que em tantas coisas já se mostra capaz e independente, de repente dando uma mancada ou demonstrando uma dependência que não parece compatível com a idade. Mas pais aqui vai um aviso: um adolescente ainda é ser em formação!
Sendo assim está em plena fase de aprendizado e tanto quanto uma criança ele precisa de sua paciência, tolerância e muita, muita conversa.
Pois a adolescência é um período evolutivo onde ocorrem transformações biopsicossociais. O que significa que o corpo (bio) muda, a mente (psico) muda e o grupo social também vai mudar. É muita coisa não é?! E diante de tantas mudanças fica realmente difícil estar calmo. Vamos lembrar que são hormônios que ficam em ebulição (ora em grandes quantidades deixando-os elétricos, ora em poucas deixando-os deprimidos), mais os órgãos sexuais que mudam, crescem, e aparecem e eles não sabem como lidar com este novo corpo. E tudo isso só no campo biológico.
No sentido psíquico a adolescência é o momento de transição entre o conhecido mundo da criança para o desejado e temido mundo do adulto. Onde se faz necessário abandonar comportamentos antigos em prol de novos, que precisaram ser desenvolvidos. Assim, é uma fase de organização da identidade.
Essa fase se inicia antes mesmo da entrada na puberdade (mudança corporal) por volta dos 8 aos 10 anos quando a criança, até mesmo por questões de maior capacidade intelectual, passa a compreender algumas realidades da vida como a morte, as regras, o valor do dinheiro, as limitações dos pais e outros mais. E só acaba quando o individuo tem condições de responder de forma independente a todos os segmentos de sua vida: profissional, financeiro, afetivo e etc. Por isso a adolescência é tão única para cada um, alguns desenvolvem esta independência mais rapidamente e outros demoram mais. Aos pais cabe ensinar e ajudar nesta transição.
Sendo importante lembrar que a maior característica da adolescência é a imaturidade. Um adolescente é um ser em essência imaturo! Por isso precisa tanto de orientação, não de bronca, eles verdadeiramente não são ainda capazes de fazer certas escolhas, precisam de supervisão. Mas além desta, há outras características que os descrevem: inconseqüência (não conseguem medir os perigos), indisciplina, questionamento da autoridade (de todos que representarem a lei sobre eles: pais, professores, policiais...), desejos sexuais, busca de maior liberdade, oscilação de idéias e por ultimo mas não menos duro, a necessidade de contradizer (para isso demonstram pontos de vista e preferências tão opostas aos que estão a sua volta). Todas essas características são naturais desta fase e são saudáveis no sentido de serem necessária para a construção da identidade.
A maior necessidade de um adolescente na verdade são duas: Regras e Cuidado. Eles necessitam ter alguém em quem se espelhar, ter um referencial, alguém que lhes dê rumo. Se não encontrar isso em casa, vão procurar fora como em ídolos, mídia, religião ou drogas.
Isso significa que os jovens precisam de adultos fortes e que resistam ao enfrentamento, porque é isso que um adolescente faz o tempo todo: enfrenta os pais. Por isso não cabe a amizade. A linha divisória entre o adulto e o adolescente proporciona segurança. Eles tentam seduzir, mas gostam de limites e regras, isso faz com que se sintam seguros. A amizade virá depois, quando ficarem adultos, maduros. Com os amigos se tem segredos, com os filhos é necessário ter privacidade, tanto para eles quanto para os próprios pais, é o que lhes possibilita ter espaço para crescer.
O papel dos pais nesta época é sobreviver. Não se perder, não se desestruturar. Saber que é uma fase difícil, mas que eles são os pais e a eles cabe o cuidado. Lembrando sempre, que não há regras específicas. Há as regras de cada família. Essas precisam ser bem definidas. Os pais devem ter clareza no que querem e esperam dos filhos e seguir seus princípios: de tempos em tempos precisam esclarecer para si mesmo e para os filhos seus objetivos de vida, seu código ético e moral.
Contudo, um fator complicador nesta etapa é que conforme os filhos crescem denunciam que os pais estão envelhecendo. Alem do que durante a adolescência a visão dos filhos sobre os pais varia entre idealizados e denegridos. Só o tempo traz uma visão inteira, onde cabem capacidades e limitações sem um lado menosprezar o outro. Porem, no tempo em que dura este olhar parcial os pais acabam por entrar em contato com seus fracassos, impotências e desilusões. Os filhos apontam isso e o adulto precisa aceitar esse desafio, que normalmente é desagradável e doloroso. Por isso, os pais precisam resolver essas angustias dentro de si, admitir seus fracassos, tentativas, erros e finitude. Isso os torna humanos e possibilita uma relação realista com os filhos e que esses também possam aprender a se aceitar e a desenvolver uma auto estima saudável.
Os pais precisam aguentar, saber que este olhar, opinião ou comportamento não é definitivo, lembrar que só existe ódio de quem se ama. Brigar não é ruim, não é errado. Briguem, mas depois conversem!
Muito se fala do quanto os jovens atualmente estão sem iniciativa e uma das razões disto é a falta de firmeza, de limites. Pois é o não (com bom senso é claro) que vai preparar os filhos para o futuro, vai provocar neles desejo de crescer e de buscar cada vez mais por seu próprio espaço em todos sentidos. Para que vou almejar por algo se tenho tudo?
Entretanto, hoje em dia é muito mais difícil ser adolescente do que no passado. Há uma dupla mensagem: de que tudo é mais fácil (fast food, computador, internet, portas magnéticas, cartões de crédito e etc) ao mesmo tempo em que tudo é mais exigente (é mais difícil se relacionar, se colocar no mercado de trabalho, conquistar uma vida digna e etc). Essa mensagem dúbia confunde, angustia e adoece. A depressão, ansiedade, pânico, transtornos alimentares e drogadição são, em geral, reflexos deste adoecimento.
Se os pais também ficam confusos, deixando de ser pais para ser amigos, a situação fica ainda mais caótica.
A “cura” vem com o tempo, com o amadurecimento, não dá para apressar, demora. Às vezes mais outras menos, mas nunca antes dos 21 anos, é por volta dele para mais. A mudança é gradual – a imaturidade vai cedendo espaço a maturidade. As mudanças são passo a passo com contestações e questionamentos.
Aos pais cabe colocar as regras, aceitar o enfrentamento, não se confundir, acolher as mudanças na relação com os filhos de idealizada para realista (em algumas vezes até decepcionadas), receber as criticas e encarar suas próprias verdades e frustrações.
Não é fácil, pois os pais criam uma expectativa de que seus filhos, tendo sido criados de forma singular como foram, serão diferentes dos outros adolescentes. Sentem que semearam um bebe e colheram um monstro. Esquecem que a rebelião pertence a liberdade que deram aos filhos quando os criaram de modo que existissem por si próprios. O que é tão positivo e necessário na vida.

Bibliografia
ABERASTURY, A.; KNOBEL, K. Adolescência normal. São Paulo: Artes Médicas, 1992.
HERCULANO-HOUZEL, Suzana. O cérebro em transformação. São Paulo: Objetiva, 2005.
OUTEIRAL, José (org). Clínica psicanalítica de crianças e adolescentes: desenvolvimento, psicopatologia e tratamento. 2 ed. Rio de Janeiro: Revinter, 2005.
WEINBERG, Cybelle (org). Geração delivery: adolescer no mundo atual. 2 ed. São Paulo: Sá, 2001.
WINCICOTT, D. W. A família e o desenvolvimento individual.  São Paulo: Martins Fontes, 2005