Reaprender a viver após uma perda.

       Falar em luto nunca é fácil. É um momento de dor, angustia e tristeza intenso. Onde a depressão fica a palavra de ordem. Tal como na adolescência se espera comportamentos e condições psiquicas que em qualquer outro momento da vida seriam considerados anormais e passivos de tratamento, no luto a condição depressiva é entendida como natural e até mesmo nescessária para elaboração da situação. Pois é muito, muito, muito duro re-aprender a viver sem aquela pessoa tão querida, e quanto mais próxima a pessoa era maior é a dor.
        Desta forma situações como momentos de desespero, desesperança, sensações de que tudo perdeu o sentido, choro, falta de cuidados consigo próprio e com os que ficaram e tantos outros atos são naturais nesta circunstância. Lembrando que cada indivíduo é único e reage diferente frente a dor, alguns se sentem sem forças para levantar da cama, enquanto outros querem viver cada dia com mais intensidade. É assim, cada um é um e vive o momento segundo sua história de vida lhe ensinou, por isso não se pode julgar que um sofre mais ou menos que outro, cada um sofre a sua maneira. 
        Por isso mesmo, algumas pessoas precisam de ajuda nesta hora, quando esta depressão passa a impossibilitar e prejudicar a vida, pode ser necessária uma avaliação psicológica e por vezes também psiquiátrica. 
        A família está num nível de sofrimento tão pesado que não aguenta (e nem se deve cobrar isso de ninguém) escutar um ao outro, cada um está fechado em si. E assim precisa ser, não há como ofertar consolo a alguém quando se está inconsolável. Contudo, conversar, desabafar, chorar e ser acolhido sem julgamentos nem represálias, ajuda muito nesta hora. Por isso um psicólogo pode ser de grande auxílio.
       Não há nada tão doloroso quanto perder alguém que amamos, é encarar a finitude e fragilidade da vida, como pode ser tranquilo? Para quem fica se faz necessário refazer os planos, os sonhos, a vida. Dói muito, porem é possível re-aprender.
        Aos poucos as lembranças tornam-se não mais fonte de tristeza e falta, mas sim de alegria, ficam belas e até mesmo uma fonte de conforto. No início parece impossível de acreditar nesta ideia, contudo, confie, vai acontecer!

Como eu quero?!

Sempre que escuto músicas presto muita atenção na letra. Como psicóloga tudo que é dito sempre se destaca e naturalmente me faz pensar. E as músicas, independente do ritmo, me fascinam, até mesmo porque tive uma professora de português que nos ensinava interpretação de texto através de letras musicais, assim viciei...
Há uma música em especial que passa uma mensagem de romântica, inocente e até é cantada como declaração de amor, mas que na verdade demonstra algo bem diferente se a analisarmos mais. Ela se chama Como eu quero escrita por Paula Toller e Leoni. Abaixo o clipe e a letra:





Como Eu Quero
Diz prá eu ficar muda, Faz cara de mistério, Tira essa bermuda, Que eu quero você sério...
Tramas do sucesso, Mundo particular, Solos de guitarra, Não vão me conquistar...
Uh! eu quero você, Como eu quero!
Uh! eu quero você, Como eu quero!...(x2)
O que você precisa, É de um retoque total, Vou transformar o seu rascunho, Em arte final...
Agora não tem jeito, Cê tá numa cilada, Cada um por si, Você por mim e mais nada...
Uh! eu quero você, Como eu quero!
Uh! eu quero você, Como eu quero!...
Longe do meu domínio, Cê vai de mal a pior, Vem que eu te ensino, Como ser bem melhor...
Longe do meu domínio, Cê vai de mal a pior, Vem que eu te ensino, Como ser bem melhor...
(Bem melhor!)...
Uh! eu quero você, Como eu quero!
Uh! eu quero você, Como eu quero!...(2x)
Uh! eu quero você, Como eu quero!
Uuuuuuuuuuhhh! Uuuuuuuuuuhhh!...

Bem, se fizermos uma leitura rápida poderemos pensar em alguém apaixonado dizendo que quer muito estar com a outra pessoa, que precisa dela do seu lado e que a quer bem... Contudo, numa leitura mais aprofundada as coisas se mostram de outra forma. O próprio Leoni em uma gravação desta música canta uma primeira versão em forma de balada, mais rapidinha e depois a repete colocando mais ênfase em algumas palavras demonstrando a verdadeira intenção da letra (se quiser conferir: http://www.youtube.com/watch?v=Es2_vKXRwzo).
Que é dizer que quer a outra pessoa, mas do seu jeito, afinal de contas é ele (o pretensamente apaixonado) que sabe o que é melhor para o outro e que pode transformá-lo em alguém melhor. Que se a pessoa fizer o que ele quer, ai sim as coisas darão certo e serão adequadas. E que para ficarem juntos tem que ser de um único e aceitável jeito: o seu. Quanta pretensão não é?!
Pois é, mas quantas vezes nos relacionamentos não acabamos por fazer isso, por julgar o outro por não ser, não agir, não querer, não pensar como nós! Neste ponto reside uma das maiores dificuldades da nossa geração: lidar com as diferenças. Não que antes isto não existisse, sempre existiu, entretanto atualmente se tornou a regra e não a exceção. Por isso tantos casamentos acabam, amizades desaparecem e se manter com alguém se torna cada dia mais difícil. Afinal, te quero como eu quero, do meu jeito!
E do nosso jeito não tem como ser. Pelo menos não só do nosso. Um relacionamento, qualquer que seja ele (amoroso, familiar, de amizade, de trabalho...) é feito de duas pessoas, que são diferentes em suas criações, experiências, maneiras de pensar, de entender o mundo e de interpretar e expressar seus sentimentos. Naturalmente, isso causa muita confusão, quanto mais intima é a relação mais se destaca essas diferenças. É muito dito que depois do casamento as coisas mudam, pioram. Não é verdade, é que a intimidade fica tão maior que essas diferenças aparecem mais, o que exige tolerância.
Ser tolerante com o outro é mais do que aceitá-lo como ele é, é ir contra o nosso narcisismo de acreditar que sabemos mais, pensamos melhor e temos as respostas certas para tudo. Aceitar que o outro pensa e quer coisas diferentes é aceitar que o outro é separado de nós, e que não pensar igual não é falta de amor e sim prova de amor próprio. Algo tão saudável.
Como conviver então? Negociando, conversando. Expor para o outro sua vontade sem esperar que seja concordado, pois pode não acontecer. E ter em mente que isso não é falta de companheirismo ou de amor, mas sim de que vocês pensam diferente. Converse, tente chegar num acordo, esta é a única maneira de qualquer relacionamento dar certo.